Venda de Remédios no Mercado Livre: O Que Muda para sua Farmácia?
Atualizado: 1 de out.

Atualização (01/10/2026): em 28 de setembro, a Anvisa notificou o Mercado Livre e determinou que a plataforma não hospede, divulgue nem facilite a venda de medicamentos até comprovar a regularidade da operação. A empresa tinha até 1º de outubro para responder. Até a data desta atualização, o caso segue em análise. Explicamos o que isso muda abaixo.
Resumo rápido: em 25 de setembro de 2026, o Mercado Livre começou a vender medicamentos com receita, incluindo antibióticos e canetas para diabetes e emagrecimento, como o Ozempic, em um teste em São Paulo. Três dias depois, a Anvisa notificou a empresa e determinou a suspensão da venda até que ela comprove a regularidade da operação, lembrando que ainda não há norma que autorize marketplaces a intermediar a venda de medicamentos. A lei já abriu caminho para as plataformas digitais, e as regras definitivas ainda vão sair. Para a farmácia de bairro, o recado continua o mesmo: a disputa é pelo cliente, e quem não tiver relacionamento próprio com ele perde espaço. |
A venda de remédios no Mercado Livre foi a notícia mais comentada do varejo farmacêutico nesta semana — e não é para menos. Pela primeira vez, uma grande plataforma de e-commerce passa a entregar em casa, em menos de uma hora, medicamentos que exigem receita retida pela farmácia. Se você é dono de drogaria, a pergunta que importa não é só "isso é permitido?", mas "o que isso muda no meu balcão, e o que eu faço a partir de agora?". É isso que respondemos a seguir.
Neste artigo:
O que o Mercado Livre anunciou, na prática
O anúncio foi feito em 24 de setembro de 2026, e a operação começou no dia seguinte. Os principais pontos:
O que é vendido: medicamentos que exigem retenção de receita, como antibióticos e agonistas de GLP-1 (Ozempic, Wegovy e similares), além de anti-inflamatórios e outros remédios com prescrição.
Como funciona a receita: o cliente envia a prescrição pelo aplicativo, e um farmacêutico da própria operação analisa o documento e registra as informações exigidas pela regulação antes de liberar o pedido.
Onde: por enquanto, só em um teste em 4 a 5 bairros da cidade de São Paulo, com expansão gradual prevista.
Quem dispensa: uma farmácia física que a empresa comprou na zona sul de São Paulo em 2025 — requisito para vender medicamentos, já que a venda precisa estar vinculada a um estabelecimento licenciado, com farmacêutico responsável.
Próximo passo: a partir de outubro, três redes de farmácia devem começar a vender dentro da plataforma, no modelo de marketplace, com a meta de chegar a 20 farmácias parceiras na Grande São Paulo até o fim do ano.
Vale lembrar que isso é o fim de um caminho gradual: a plataforma já vendia medicamentos isentos de prescrição desde março de 2024 e passou a vender remédios com receita (sem retenção) em julho de 2026. O que mudou agora foi a entrada dos medicamentos de receita retida — justamente os de maior valor e maior recorrência.
Por que as ações das farmácias caíram na bolsa
No pregão de 24 de setembro, as ações das três grandes redes de farmácia listadas na B3 recuaram entre 4,9% e 8%. A leitura dos investidores foi simples: se uma plataforma com logística própria e milhões de clientes entra na venda de remédios com receita, as margens do varejo farmacêutico ficam sob pressão.
O medo tem fundamento nos números. Como já mostramos em Mercado farmacêutico em 2026: 7 números que todo dono de farmácia independente precisa conhecer, as vendas de farmácia pela internet já passam de R$ 35 bilhões por ano — e, no caso das canetas GLP-1, a fatia vendida on-line saltou de 5,2% para 57,9% em quatro anos. Ou seja: o consumidor desse tipo de medicamento já se acostumou a comprar sem sair de casa. O Mercado Livre só está entrando onde o hábito já existe.
Mas vale o contraponto: analistas de mercado lembram que a operação ainda é um teste pequeno e que a regulação brasileira é bem mais restritiva do que a de outros países da América Latina. A queda na bolsa diz mais sobre o potencial de longo prazo do que sobre o que muda na semana que vem.
A venda de remédios no Mercado Livre é legal?
Essa é a parte mais nebulosa — e onde está a principal disputa hoje. Em resumo, a situação é esta:
A lei abriu a porta, mas deixou a regra para a Anvisa. A Lei nº 15.357, de 20 de março de 2026 — a mesma que liberou farmácias dentro de supermercados — passou a prever que farmácias contratem canais digitais e plataformas de comércio eletrônico para logística e entrega, desde que observada a regulamentação sanitária aplicável.
A Anvisa revogou restrições, mas avisou que isso não é liberação. Em agosto, a agência revogou medidas que restringiam a venda e a publicidade de medicamentos em plataformas como Mercado Livre, iFood e Shopee. Mas, em nota de 10 de agosto, deixou claro que a revogação "não implica em autorização automática de comercialização de produtos farmacêuticos".
As regras definitivas ainda estão sendo escritas. Em 19 de agosto, a Diretoria Colegiada da Anvisa aprovou a abertura do processo para regulamentar o uso de plataformas digitais na logística e entrega de medicamentos, com consulta pública e sem prazo final definido. A diretriz já sinalizada: a farmácia continua responsável pela venda, com farmacêutico presente, informação ao consumidor sobre a origem do medicamento e canal de contato com o farmacêutico.
O setor contestou. Em 25 de setembro, a associação que representa as grandes redes de farmácia enviou um ofício à Anvisa pedindo esclarecimentos urgentes sobre a regularidade do modelo, inclusive sobre o plano de colocar farmácias de terceiros vendendo dentro da plataforma.
A Anvisa notificou o Mercado Livre. Em 28 de setembro, a agência determinou que a plataforma não hospede, divulgue nem facilite a venda de medicamentos até comprovar a regularidade da operação. Pediu documentos como autorização de funcionamento, alvará sanitário, identificação do farmacêutico responsável e os procedimentos de conferência de receitas, armazenamento e transporte. Segundo a Anvisa, a regra atual prevê que a venda de medicamentos pela internet seja feita pelo próprio estabelecimento autorizado, em site próprio, e não há previsão normativa para a intermediação por marketplaces. O Mercado Livre afirmou que cumpre as normas aplicáveis e que mantém diálogo com a agência.
Um ponto que costuma gerar confusão: medicamentos controlados (tarja preta) continuam fora dessa história. Desde a RDC nº 812/2023, a farmácia pode fazer a entrega remota de controlados, desde que receba e confira a receita original antes da entrega — mas a compra e venda desses medicamentos pela internet segue proibida.
Também não é coincidência que essa discussão ganhe força na mesma semana em que a Anvisa abre, em 30 de setembro, a emissão eletrônica de receitas sujeitas à retenção pelo SNCR. Receita eletrônica com QR code e registro de uso é exatamente o tipo de ferramenta que torna a venda a distância mais rastreável — explicamos o que muda em Receituário Eletrônico da Anvisa: O Que Muda na Farmácia?.
O que isso muda para a farmácia de bairro
Sendo direto: no curto prazo, a venda de remédios no Mercado Livre muda quase nada para a maioria das drogarias. A operação cobre poucos bairros de uma única cidade, e a regra definitiva ainda não saiu. Mas, no médio prazo, três grupos de produtos ficam mais expostos à concorrência digital:
Medicamentos de alto valor e uso contínuo, como as canetas GLP-1 — o cliente compra todo mês, compara preço e já está acostumado a pedir on-line.
Medicamentos de uso crônico (pressão, diabetes, colesterol), em que a compra é previsível e pode ser programada.
Medicamentos isentos de prescrição e itens de conveniência, que já disputam espaço com o delivery há anos.
Por outro lado, a farmácia de bairro tem vantagens que um marketplace não copia com facilidade:
Proximidade real: As farmácias independentes somam mais da metade dos pontos de venda do país, muitas vezes em bairros e cidades onde a entrega em 1 hora de uma grande plataforma não chega — e nem deve chegar tão cedo.
Relacionamento: Mais de 60% dos clientes compram quase sempre na mesma farmácia, como mostramos em O futuro do pequeno varejo farmacêutico no Brasil. Um farmacêutico que conhece o paciente pelo nome vale mais do que um botão de "comprar de novo".
Serviços que não cabem numa caixa de entrega: Aferição de pressão, testes rápidos, vacinação e acompanhamento de tratamento — o movimento que detalhamos em Farmácia como Hub de Saúde. No caso das canetas GLP-1, por exemplo, orientação sobre aplicação, efeitos colaterais e adesão ao tratamento faz diferença real para o paciente.
Urgência: Quem está com dor, febre ou precisa de um antibiótico agora não quer esperar — nem uma hora, se a farmácia fica a duas quadras.
Quem vai ser dono do seu cliente?
A notificação da Anvisa freou o movimento, mas não encerrou a discussão. A lei já permite que farmácias usem plataformas digitais, e quando as regras saírem, os marketplaces devem voltar, desta vez com farmácias vendendo dentro deles.
É aí que está a disputa de verdade. Quando o cliente procura um remédio no mesmo aplicativo em que compra celular, roupa e ração, a farmácia corre o risco de deixar de ser o destino da compra para virar apenas o fornecedor por trás dela. Quem controla a tela controla a busca, a comparação de preço e os dados que transformam uma venda em recorrência.
Os restaurantes já viveram isso com os aplicativos de delivery: ganharam pedidos, mas muitos perderam margem e o contato direto com o próprio cliente.
E a farmácia independente começa essa disputa em desvantagem. Em uma pesquisa do Instituto AXXUS com 420 donos de farmácias independentes, 99,5% disseram não ter programa de fidelidade, 99% concedem desconto sem nenhuma regra no sistema e 86% ainda registram a falta de produtos à mão. Enquanto isso, nas grandes redes, o canal digital saltou de 3% para 18% das vendas em cinco anos, segundo a Abrafarma.
Estar no digital vai ser cada vez mais necessário. Mas o que protege a drogaria é ter uma relação direta com o cliente: cadastro, histórico de compra, contato pelo WhatsApp e um atendimento que faz o cliente voltar, seja no balcão ou no celular.
5 formas de a drogaria se preparar para a concorrência digital
Tenha seu próprio delivery e atendimento por WhatsApp. O consumidor já compra remédio sem sair de casa — a questão é se ele compra de você. O crescimento dos pedidos em aplicativos, que mostramos em Digitalização no Setor Farmacêutico: Pedidos em Farmácias Crescem 78% no iFood, é um sinal de que a entrega deixou de ser diferencial para virar obrigação.
Cuide do cliente de uso contínuo. Cadastro, lembrete de recompra, separação antecipada do pedido e contato do farmacêutico — é o cliente que o marketplace mais quer, e o que a farmácia de bairro tem mais condição de fidelizar.
Transforme serviços farmacêuticos em motivo de visita. Serviço clínico traz o cliente para dentro da loja e cria um vínculo que não depende de preço.
Não entre em guerra de preço em tudo. Concentre a competitividade nos itens que o cliente mais compara e proteja a margem no restante — estratégia que explicamos em Como Melhorar a Margem da Farmácia sem Aumentar Preços.
Esteja pronto para a receita digital. Com o SNCR entrando em operação, a farmácia que já tem os perfis de acesso liberados e a equipe treinada sai na frente quando a receita eletrônica se popularizar.
Perguntas frequentes sobre a venda de remédios no Mercado Livre
O Mercado Livre pode vender remédio com receita?
A empresa vende por meio de uma farmácia física licenciada, com farmacêutico validando a receita. Mas, em 28 de setembro de 2026, a Anvisa determinou que a plataforma suspenda a venda de medicamentos até comprovar a regularidade da operação, e a regulamentação específica para plataformas digitais ainda está em elaboração.
A Anvisa proibiu o Mercado Livre de vender remédios?
A Anvisa notificou a empresa e determinou que ela não hospede, divulgue nem facilite a venda de medicamentos até comprovar a regularidade da operação. Não é uma proibição definitiva: o caso está em análise, e as regras para marketplaces ainda serão definidas pela agência.
Já dá para comprar Ozempic no Mercado Livre?
Somente na área de teste, em alguns bairros da cidade de São Paulo, com envio da receita e validação por farmacêutico. Como as canetas GLP-1 exigem receita sujeita a retenção, a compra não acontece sem prescrição válida.
Remédio controlado (tarja preta) pode ser vendido pela internet?
Não. A farmácia pode fazer a entrega remota de controlados desde a RDC nº 812/2023, conferindo a receita original antes da entrega, mas a compra e venda desses medicamentos pela internet continua proibida.
A farmácia de bairro também pode vender em marketplace?
A Lei nº 15.357/2026 prevê que farmácias licenciadas contratem plataformas digitais para logística e entrega, mas a Anvisa ainda está definindo as regras dessa operação. Enquanto isso, a farmácia continua responsável por tudo o que dispensa — inclusive quando usa um canal digital.
Nenhuma farmácia precisa enfrentar essa mudança sozinha
Cada nova frente de concorrência — grandes redes, aplicativos de entrega e agora os marketplaces — pesa mais para quem opera sozinho, sem escala de compra, sem ferramentas digitais e sem alguém acompanhando as mudanças regulatórias de perto. Estar em uma rede estruturada ajuda justamente nisso. No Grupo AMR Saúde, o franqueado conta com negociação em escala, soluções de tecnologia e delivery, campanhas de marketing prontas e uma farmacêutica especializada na equipe do escritório, que traduz mudanças como essa em orientação prática para o dia a dia da loja — sem que a drogaria perca a proximidade com o cliente, que é a sua maior força. Se você quer entender como isso funciona para quem já tem uma farmácia, converse com um consultor ou veja se a franquia de farmácia faz sentido para o seu negócio.





